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Entrevista: Giga Rental sobre o cenário de locação de espaços internos no Brasil
19 agosto 2026
A Giga Rental, com sede em São Paulo, trilhou um caminho diferente no mercado brasileiro de locação de plataformas elevatórias, fugindo do setor da construção civil, mais comum. Com cerca de 700 PEMTs (Plataformas Elevatórias Móveis de Trabalho), a empresa familiar concentra-se em aplicações internas, principalmente nos setores industrial, logístico, de exposições e eventos. João Guilherme, gestor da segunda geração da empresa, explica por que o serviço, a manutenção dos equipamentos e a confiabilidade são mais importantes do que a busca por preços de aluguel mais baixos.
Fundada em 2004 por Reneo, pai de João Guilherme, a Giga deriva das duas primeiras letras dos nomes de seus irmãos, Giovanna e Gabriel, que também fazem parte da empresa.
A partir da esquerda: Gabriel, Giovanna e Reneo, ao lado do entrevistado João Guilherme. (Imagem: Giga Aluguel).A empresa começou com plataformas elevatórias tesoura Genie usadas, numa época em que o acesso motorizado ainda era um conceito relativamente novo no Brasil. Hoje, a empresa familiar possui uma frota de cerca de 700 máquinas e continua focada exclusivamente em PEMTs (Plataformas Elevatórias Móveis de Trabalho).
João Guilherme trabalha em tempo integral na empresa há 15 anos. Seu pai continua envolvido, mantendo a estrutura de propriedade familiar que moldou a abordagem da Giga em relação a investimentos e equipamentos.
“Comecei aqui e este é meu primeiro emprego”, diz João Guilherme. “Tudo o que sei está aqui.”
A empresa opera a partir de uma única unidade principal, localizada a cerca de 40 km do centro de São Paulo, e atende a uma área de aproximadamente 200 km de raio. Em vez de buscar uma presença em todo o país, a Giga acredita que sua localização lhe dá acesso a um dos mercados industriais mais concentrados do Brasil.
“Estamos perto das principais rodovias, o que é muito importante”, diz João Guilherme. “Estamos a cerca de 20 km do maior entroncamento rodoviário que liga as diferentes partes do estado de São Paulo.”
Ele estima que cerca de metade do PIB do Brasil seja gerada em um raio de 100 km da base da Giga, reforçando a decisão de permanecer na região.
“Não precisamos expandir para além desta área”, afirma. “Temos planos para novas instalações e filiais, mas vamos permanecer locais.”
Especialistas em ambientes internos
Esse foco regional é acompanhado por uma estratégia de clientes muito específica. Cerca de 95% da frota da Giga é elétrica e a empresa concentra-se em instalações industriais, centros de logística, exposições e eventos, em vez de construção civil.
Plataformas elevatórias JLG e Genie em uma montagem para evento. (Imagem: Giga Rental).Cerca de 70% da frota é composta por plataformas elevatórias tesoura, e os restantes 30% são constituídos por plataformas elevatórias articuladas com alturas de trabalho que variam entre 8 m e 28 m.
“Estamos focados na indústria, na montagem de feiras e eventos e em centros de logística”, explica João Guilherme. “Nosso negócio principal é enviar máquinas para ambientes internos.”
De fato, a filosofia da empresa em relação a ambientes internos vai além do cliente. A Giga mantém suas máquinas dentro de suas próprias instalações quando não estão em uso, em vez de armazená-las em um pátio externo.
Essa política faz parte de uma abordagem mais ampla para a preservação de equipamentos. As máquinas retornam à sede para manutenção preventiva e corretiva, onde os técnicos da Giga podem inspecioná-las, repará-las e reformá-las antes de serem devolvidas ao mercado.
“Quando você cuida bem das suas máquinas, pode usá-las por mais tempo”, diz João Guilherme.
Embora o foco da Giga seja a compra de novos equipamentos, algumas das unidades adquiridas entre 2010 e 2012 ainda estão em funcionamento, o que significa que a Giga tem experiência em operar máquinas por consideravelmente mais de 10 anos, mantendo seu alto nível de qualidade.
A construção civil não está excluída, mas Guilherme afirma que não é o ambiente preferido da empresa. Ele acredita que os clientes dos setores industrial e logístico geralmente dão maior ênfase à condição dos equipamentos, à documentação, à certificação e ao treinamento dos operadores.
“Na construção civil, o foco costuma ser mais no custo”, diz ele. “Um centro industrial ou logístico é muito mais exigente quanto à qualidade dos equipamentos e da empresa que os fornece.”
Isso torna a proposta de serviços da Giga particularmente relevante. A empresa opera seus próprios caminhões e seus motoristas são treinados pelos fabricantes originais (OEMs). Eles podem entregar a máquina, fornecer treinamento de familiarização ao operador e emitir a certificação de treinamento da própria Giga.
A GIGA Rental aderiu à IPAF em julho de 2026, embora João Guilherme destaque que o Brasil não possui um sistema de certificação unificado como o da IPAF, mas a Giga dá grande ênfase ao treinamento de operadores e, por isso, aderiu à IPAF em julho de 2026.”
O perfil dos clientes da empresa também cria um modelo de locação específico para ela. Menos de 30% dos seus negócios são de longo prazo, com uma parcela significativa proveniente de projetos de curta duração.
Eventos e exposições podem exigir de 20 a 30 máquinas para um único fim de semana, criando grandes demandas logísticas. A Giga pode entregar dezenas de máquinas na sexta-feira e recolhê-las na segunda-feira.
As tarifas podem ser mais altas, mas João Guilherme afirma que o preço não é o único motivo pelo qual a Giga mira nesse segmento. Os clientes esperam confiabilidade absoluta.
“Se eles precisam do equipamento às 10h ou às 22h, ele precisa chegar nesse horário”, diz ele. “É como um fotógrafo de casamento. Se eu me atrasar para o casamento, será tarde demais. Não há margem para atrasos.”
Essa precisão ajuda a gerar negócios recorrentes e recomendações, o que João Guilherme considera mais valioso do que competir agressivamente em preço.
“Não competimos por preço”, diz ele. “Estamos mais focados em ter um bom desempenho do que em preço.”
Cinco técnicos para 700 máquinas
Um elemento fundamental desse desempenho é a capacidade técnica interna da Giga.
A empresa conta com cinco técnicos para dar suporte a uma frota de cerca de 700 máquinas – menos de um técnico para cada 100 unidades. João Guilherme afirma que isso representa uma estrutura consideravelmente mais enxuta do que a do mercado de locação em geral, onde é comum haver um técnico para cerca de 25 máquinas.
Os representantes de fabricantes de equipamentos originais (OEMs) que visitam a Giga muitas vezes se surpreendem com a proporção. Mas João Guilherme argumenta que a equipe técnica relativamente pequena é possível justamente devido ao alto nível de conhecimento técnico interno da empresa e à sua abordagem rigorosa na preparação dos equipamentos.
“Nós fazemos a lição de casa”, diz ele. “Quando você realiza uma boa manutenção interna antes de enviar a máquina para o cliente, é menos provável que tenha surpresas no local de trabalho.”
Em vez de depender de técnicos para resolver problemas frequentes em campo, a Giga busca identificar e solucionar problemas em sua sede antes do envio da máquina.
“Se você ficar de olho na máquina e controlá-la com muita atenção, estará mais perto da perfeição”, diz João Guilherme.
Essa abordagem também está intimamente ligada ao modelo de propriedade familiar.
“Quando você está em uma empresa familiar e é quem toma as decisões, isso faz muita diferença na forma como você enxerga seus equipamentos”, diz ele.
Evitando a guerra de preços
A estratégia da Giga está sendo testada por um mercado de locação brasileiro bastante desafiador. Guilherme afirma que os últimos dois anos testemunharam um aumento na concorrência de novas locadoras e uma crescente entrada de equipamentos chineses.
Um par de plataformas elevatórias tesoura Zommlion da Giga Rental. (Imagem: Giga Rental).Algumas novas empresas começaram com apenas algumas máquinas, enquanto outras, que antes atuavam em diferentes setores de equipamentos, adicionaram plataformas elevatórias móveis de trabalho (PEMTs) às suas frotas. Ao mesmo tempo, grandes locadoras têm comprado novas máquinas chinesas e se desfeito de equipamentos mais antigos.
Isso criou um mercado crescente de imóveis de segunda e terceira mão, exercendo pressão adicional sobre os preços dos aluguéis.
“Os preços dos aluguéis certamente caíram nos últimos dois anos”, afirma João Guilherme.
Consequentemente, a utilização da infraestrutura da Giga caiu para cerca de 40%, em comparação com os 60% ou mais anteriores. Mas a empresa optou por não acompanhar a queda do mercado.
“Prefiro manter as minhas máquinas nas instalações em vez de competir por preço”, diz João Guilherme. “Preciso pagar as contas, mas também preciso reinvestir, comprar peças de reposição, trocar baterias e pneus e fazer a manutenção.”
Ele argumenta que as taxas de aluguel precisam refletir o custo de manutenção de uma frota em boas condições e a substituição de equipamentos ao longo do tempo. Empresas focadas apenas em garantir o pagamento no final do mês podem criar problemas para o mercado em geral, sugere ele.
A Giga continua a beneficiar de clientes de longa data que valorizam o seu serviço e estão dispostos a pagar o preço correspondente. O desafio é conquistar novos clientes cujas expectativas mudaram com a chegada de alternativas mais baratas.
Aumentar a frota
A frota da Giga inclui hoje equipamentos das marcas Genie, JLG, Haulotte, Manitou e Zoomlion. A empresa começou a investir em máquinas Zoomlion em 2022 e agora possui cerca de 150 a 160 unidades do fabricante chinês.
A decisão foi tomada após cerca de cinco meses de discussões, incluindo visitas das equipes de vendas e técnicas da Zoomlion. João Guilherme também viajou à China para visitar a fábrica e examinar seus processos de fabricação.
“Queríamos ter certeza de que eles estavam entrando no mercado brasileiro de forma séria”, diz ele. “Por isso decidimos investir neles.”
João Guilherme acredita que a chegada dos fabricantes chineses acabou por beneficiar o mercado, forçando os fabricantes estabelecidos a repensarem a forma como atendem os clientes.
“Há dez anos, as marcas chinesas tinham qualidade inferior e não dispunham de peças, assistência técnica e mercado de reposição”, afirma. “Agora, elas são muito avançadas, com novas tecnologias, novas formas de fazer as coisas e grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento.”
Ele também acredita que a mudança na oferta de equipamentos está contribuindo para uma transformação estrutural no Brasil. Menos máquinas hidráulicas novas estão entrando no mercado, enquanto um grande número de máquinas mais antigas permanece disponível, muitas vezes a preços bem mais baixos.
O próximo investimento?
Apesar da preferência contínua da empresa por equipamentos novos, a Guilherme não está planejando, no momento, uma grande expansão de sua frota.
“Já tenho em estoque todos os tamanhos e alturas, então não é hora de comprar equipamentos novos hoje”, diz ele.
Essa decisão se baseia em parte nas condições de mercado e em parte na estrutura regional da Giga. Empresas nacionais de locação podem transferir máquinas entre regiões se as taxas de aluguel caírem em um determinado mercado. A Giga, com sua única base operacional principal, não possui essa flexibilidade.
“Se os valores de aluguel caírem em São Paulo, as grandes empresas podem transferir equipamentos para outra região onde os preços não tenham caído tanto”, diz G. João Guilherme. “Nós não temos essa opção, então minha estratégia é esperar antes de comprar novos equipamentos.”
Dois caminhões de entrega da Giga. (Imagem: Giga Rental).A incerteza econômica generalizada reforça essa cautela. João Guilherme aponta para as altas taxas de juros, a inflação, a incerteza política em torno da eleição presidencial brasileira e a volatilidade dos preços da energia.
“No geral, não é um bom momento para investir em nosso país”, diz ele. “Mas as coisas vão mudar.”
Por ora, ele vê 2026 como um ano para observar, e não para expandir. "Vejo este ano como um momento para observar o mercado e manter a calma."
Isso não significa que a Giga tenha abandonado suas ambições. Já existe uma pequena unidade adicional nas proximidades, usada principalmente pela equipe de vendas para ficar mais perto dos clientes, e a empresa tem planos para novas instalações no futuro.
Mas João Guilherme afirma que a expansão só acontecerá quando a Giga conseguir replicar os padrões de sua operação atual.
“Se abríssemos outra filial, teríamos que garantir que ela oferecesse o mesmo serviço que oferecemos aqui – perfeição”, diz ele. “Eu precisaria dobrar o número de técnicos e motoristas, e é difícil encontrar essas pessoas hoje em dia.”
Para uma empresa que cresceu organicamente, de um punhado de tesouras Genie usadas para uma frota especializada de 700 unidades, essa cautela é característica do negócio.
A Giga não está tentando ser a maior locadora de equipamentos do Brasil. Em vez disso, concentra-se em ser uma operadora regional altamente especializada, protegendo seus ativos, investindo quando a rentabilidade justifica o investimento e escolhendo clientes que valorizam o serviço em vez do menor preço possível.
“Somos grandes na nossa região”, diz João Guilherme. “E vamos continuar sendo locais.”
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